20/06/2015

Ficou pela Calçada.

Acorda logo pela manhã e já checa no navegador do celular uma lista de sintomas. Do que é que eu estou morrendo hoje? Faz café por cima do café velho do dia anterior por preguiça de esvaziar a jarra. Abre a porta, pega o jornal e o esquece em cima da mesa. Não tem tragédia mesmo.  A previsão do tempo é sempre igual. O sol brilha na tela da televisão por trás do sorriso ensaiado do apresentador, mas no céu ele nunca aparece.

No caminho pro trabalho encontra muito trânsito e nenhum acidente. Que pena. Ao invés de ouvir a sinfonia de Beethoven, escuta uma orquestra de buzinas, Toyota, Honda, Ford, grandes compositores contemporâneos. No túnel pensa na quantidade de monóxido de carbono escapando dos canos dos carros e o imagina invadindo sorrateiramente os pulmões indefesos. Ninguém parece estar mais sonolento, ninguém recosta a cabeça no banco e desliza para uma soneca potencialmente eterna. Que pena.

Cumprimenta o primeiro segurança, o segundo e o terceiro, depois perde a paciência. Entra num estado habitual de coma durante as primeiras horas de trabalho até que um pássaro bate voando na janela de vidro e despenca pra morte que o espera trinta e três andares abaixo. Que sortudo. Grampeia papel, grampeia papel, grampeia papel e depois a própria pele só por diversão. Duas gotas de sangue na palma da mão e mais nada.

As janelas do escritório só abrem até metade. O corpo inteiro de um homem adulto jamais conseguiria passar por ali. Que pena.