21/09/2014

A chave está sempre no alto do batente.

"Às vezes eu queria não ter te conhecido." Acho que essa frase é de algum filme que vimos juntos, e que você repetiu para mim em meio a copos espatifando na parede às tuas costas. Às vezes eu queria não ter te conhecido. Na maioria das vezes.
Na maioria não. De vez em quando.
Quase nunca, na verdade.
Em raras exceções.
Eu não queria ter te conhecido quando eu estou sozinha em casa em um sábado de noite e você está em Berlim, e eu queria estar lá contigo, mas não posso.
Eu não queria ter te conhecido quando eu me pego acabando na quarta-feira com o maço que deveria durar a semana inteira, porque quando liguei o rádio no começo da manhã achei ter ouvido a sua voz.
Eu não queria ter te conhecido quando meros estranhos me perguntam como você está, se está bem, e eu quase engasgo em prantos porque honestamente não sei responder.
Eu não queria ter te conhecido quando o lado esquerdo da cama está vazio porque você está sangrando em um quarto de hotel qualquer.
Eu não queria ter te conhecido na ausência de você.
Mas vamos deixar os copos no guarda-louças. E guardar as palavras de volta na boca. E fingir que está tudo bem na próxima vez que você estiver descendo as escadas tortas do meu prédio, com a mala em mãos – outra vez.