09/08/2014

o tempo tem o hábito de mudar a qualidade de substantivos.

Daquelas ruas bucólicas, o que sinto mais saudade é da solidão. Do anoitecer, da escuridão que chegava sempre tão tarde. Do silêncio, da iluminação fantasmagórica e amarelada dos lampiões. De contar o tempo das viagens de carro por músicas e não minutos. E os campos de girassóis que não tinham fim e às vezes davam lugar a vinhedos tão simétricos que faziam o mundo inteiro parecer em ordem. Acordar no frio com o uniforme estendido em cima da sofá, tomar café e caminhar comigo mesma. Ouvir a televisão berrando em alemão, sem entender uma palavra, mas apreciando-as como uma melodia. O achocolatado que nunca dissolvia como deveria no copo de leite. O cheiro de cigarro que parecia estar impregnado em todos os lugares. De todos os incômodos que hoje se tornaram nostalgia. De todas as tristezas que hoje recordo com um sorriso.