19/04/2014

to be coughing up blood.

Às três horas da manhã eu rolo na cama, assombrada pelo quadro pintado mais cedo, a tinta ainda fresca. É teu rosto. Não foi consciente, mas eu sei que é teu rosto. São teus olhos, teu lábios, teu nariz ligeiramente torto por conta de um médico que não foi muito cuidadoso na hora de o colocar no lugar quando você o quebrou uns cinco ou dez anos atrás. E é teu sangue, teu sangue que já secou, escureceu, já perdeu aquele encanto que tinha enquanto estava nas tuas veias, pulsando quente, espesso e escarlate.

Eu não devia estar assim. Eu devia estar dormindo, e não pensando em por que os nós dos teus dedos estão sempre vermelhos e teus dedos sempre tão pálidos. Não devia estar lembrando dos teus lábios rachados e me perguntando por que até tuas olheiras me encantavam. Não devia estar comparando a minha altura com a tua, estupidamente, tentando lembrar quantos centímetros eu tinha a menos que você, lembrando do ângulo que você inclinava a tua cabeça para nossos lábios se juntarem.

A tua voz na minha mente, ecoando na pintura, no teto, nas paredes do quarto. A tua voz rouca, grave, atravessando meus ouvidos; e a espessura do meu crânio que não era o suficiente para te manter longe do meu cérebro.

E não me deixa dormir.