20/11/2016

Pensamentos Aleatórios #2

Eu só quero te lavar da minha mente. 
Me livrar desse sobressalto toda vez que penso ouvir a tua voz. 
Eu só quero te lavar da minha mente.

03/07/2015

Pablo Picasso

Você desenhava com teu dedo nas minhas costas
com o mesmo descaso que desenhava na mesa do bar
círculos, espirais, iniciais de nomes aleatórios, vez ou outra um coração
e eu deitada, fingindo dormir
tentando adivinhar
que obra de arte simplista você iria fazer
na tela em branco que era minha pele nua.

E o caminho dos teus dedos
deixou uma marca
muito mais permanente
que qualquer tinta.

20/06/2015

Ficou pela Calçada.

Acorda logo pela manhã e já checa no navegador do celular uma lista de sintomas. Do que é que eu estou morrendo hoje? Faz café por cima do café velho do dia anterior por preguiça de esvaziar a jarra. Abre a porta, pega o jornal e o esquece em cima da mesa. Não tem tragédia mesmo.  A previsão do tempo é sempre igual. O sol brilha na tela da televisão por trás do sorriso ensaiado do apresentador, mas no céu ele nunca aparece.

No caminho pro trabalho encontra muito trânsito e nenhum acidente. Que pena. Ao invés de ouvir a sinfonia de Beethoven, escuta uma orquestra de buzinas, Toyota, Honda, Ford, grandes compositores contemporâneos. No túnel pensa na quantidade de monóxido de carbono escapando dos canos dos carros e o imagina invadindo sorrateiramente os pulmões indefesos. Ninguém parece estar mais sonolento, ninguém recosta a cabeça no banco e desliza para uma soneca potencialmente eterna. Que pena.

Cumprimenta o primeiro segurança, o segundo e o terceiro, depois perde a paciência. Entra num estado habitual de coma durante as primeiras horas de trabalho até que um pássaro bate voando na janela de vidro e despenca pra morte que o espera trinta e três andares abaixo. Que sortudo. Grampeia papel, grampeia papel, grampeia papel e depois a própria pele só por diversão. Duas gotas de sangue na palma da mão e mais nada.

As janelas do escritório só abrem até metade. O corpo inteiro de um homem adulto jamais conseguiria passar por ali. Que pena.

05/04/2015

Esses amores modernos.

Aquela chuveirada pós-coito. Eu sabia que enquanto a água gelada encharcava meu cabelo, ele estava na cama, meio ofendido, se perguntando se devia levantar e ir embora. Mas era mais que um hábito, era um ritual. Como algumas pessoas gostavam de acender um cigarro depois de uma trepada, eu gostava de entrar no banho. Tirar o suor dele de mim, ou ele esperava que eu ficasse com a porra dele escorrendo pelas pernas por mais alguns minutinhos só pra fortalecer seu ego abalado?
Eu gostava da água fria saindo dos canos, caindo sobre minha cabeça, me limpando enquanto seguia seu caminho até meus pés e depois, adeus, pelo ralo.
Quando saí do banheiro, toalha embolada no topo da cabeça, nua, ele já estava calçando os sapatos. De forma deliberadamente lenta. Ele não queria sair de fininho, mas queria fingir que queria. Queria fingir que saí do banho bem na hora de o flagrar, e não que eu soubesse que ele esperou até a água parar de correr pelos canos antes de começar a amarrar o outro pé.
"Você podia ficar" não minto. Seria bom ter um pouco de calor durante a noite, alguém com quem me enrolar na madrugada. E ele era peculiarmente quente. Sua temperatura corporal sempre parecendo 1 ou 2 graus acima do normal. Uma febre constante. Um contraste delicioso após o banho frio.
Mas ele apenas calça o outro pé de sapato e me olha deitada na cama, mas não se deita comigo. Levanta e atravessa a porta e eu não sei para onde ele vai.